Constantemente, deixamos de fazer o que queremos fazer.
Outras tantas vezes, todos os dias, nos subtraímos de tempo e de vida somente para cumprir obrigações – empregos que não gostamos, pessoas que não amamos, atividades que não nos dão nenhum prazer. E, por outro lado, tanta vida por viver, tanto amor para trocar, tanto afeto por experimentar. Por que é que vivemos dessa forma autômata, mecânica, nos negando...? Por que nos encerramos em tantas tabelas de excel, em tantas grades de currículos lattes, em tantos status do mundo...? Por que, ao invés de cerrarmos portões em nossas casas, não cerramos apenas uma leve mochila nas costas e embarcamos na aventura da vida mesmo que não possamos sair do lugar...?

Tem coisas que a gente só se permite vislumbrar quando é ainda muito jovem. Mas, talvez, tais indagações voltem a nos perturbar quando velhos estivermos, em camas infelizes de hospitais, com a vida por um sopro a se esvair como o conta-gotas do soro. (Aos que tiverem a “oportunidade”...). Tem coisas que, - quem sabe? Eu, por enquanto, só posso imaginar – só sejam possíveis de ser provocadas naquele último leito, naquela casa que diz-se sua, mas já não se reconhece, com o crepitar do fogão baixinho enquanto o retrato de uma linda moça a sorrir está na sua estante, lhe olhando. A moça vaidosa, de vestido, tem anéis, usa esmalte e um batom vermelhos. A moça da foto em questão é a minha mãe, e a mulher na cama ao lado do fogão a lenha é a minha avó. Cheia de vida no retrato, a jovem Margarida, agora com mais de cinco décadas (ela me mata se souber que eu revelei!), me diz que tinha 19 anos, e eu compreendo porque cá o seu sorriso é entristecido, ainda que ele seja vitorioso. Minha avó, aos 82, se despede pouco a pouco dessa vida – ela disse que a morte esqueceu dela; - e acompanhar o seu sofrimento me faz pensar no sentido de tudo e de nada – porque é só nessas horas que essas perguntas nos atacam com mais força (embora, em certas pessoas, esses pontos de interrogação pousam sempre bailando em nossas auras idosas). Ah, são as crises kierkegaardianas... Eu bem sabia que experimentaria algumas ao longo do doutorado. É como estar à beira de um arranha-céu – eu cheguei tão alto! Por que não posso dali pular? Qual o sentido de ficar lá em cima? Que sensação terá mexer-se ao ar...?

***

Enquanto tudo isso acontece, eu acabo me lembrando de pinturas fugidias do passado. Ah, e elas são tantas... Nunca pensei que choraria a morte da minha avó. Sei que parece bem estranho dizer isso. Mas é a verdade. Sempre guardei para a morte dos mais velhos aquele silêncio respeitoso de serenidade – parece que sua partida carrega um quê de dever cumprido, que nós, os mais jovens, não podemos ambicionar caso façamos a passagem. Mas, eles não. As rugas conferem uma bondade emprestada mesmo ao mais safado dos velhos. Em suas cãs repousa a sabedoria e a beatitude, imbuídas de uma placidez de dar inveja a Jesus Cristo. Mas, percebi que sim, sofreria a morte da minha avó – percebi isso no sábado – pois, sábado, ainda, eu dirigia chorando. Começou a tocar uma música que me trouxe qualquer memória doce de infância, e nesse instante percebi como minha avó era parte dela! Me equilibrei vite fait e tratei de me concentrar no trabalho, mas a crise ficou guardada e dias depois eclodiu – ah, e eclodiu com força...! Mas, o assunto não sou eu, e sim, eu estava falando de memórias... Da minha avó lembro coisas... – e embora também existam algumas ruins, eu prefiro enterrá-las com ela. Da minha avó lembro coisas e, pasme!, perto dela sou tão jovem. Quais serão as coisas tantas que minha vó lembra e guarda da vida – de mim, dos filhos e das filhas, das netas e dos netos, dos esposos (foram 3! Todos já falecidos. Ah, vai ser engraçado lá em cima, vó, que saia justa, hem!); dos tesouros que por tanto tempo guardou...?

Lembro dos seus bolinhos de chuva. Ela enrolava a massa com uma garrafa e os cortava retangulares. Eram tão, tão, tão gostosos! Como eu amava aqueles bolinhos!
Lembro de uma vez quando eu tinha 5 ou 6 anos e precisei ficar com ela, pois minha mãe foi viajar a Porto Alegre resolver coisas da separação recente, e ela recortou uns quadrinhos de jornal para mim e fez tipo um quebra-cabeças. E eu estava tão inconsolável aquele dia! Devia ter pensado que minha mãe também me abandonara. Não foi incomum reviver aquela sensação de abandono a cada pessoa que foi embora depois do meu pai da minha vida. Como são essas coisas da primeira infância mal curadas, não é? ...
Outra vez, já com uns 8 anos, fui à vendinha com a Dona Leriana e, na época, as meninas estavam usando uns macaquinhos estampados de algodão, e me encantei por um roxo. Ela perguntou o preço, mas era muito caro. Meus olhinhos até brilharam de esperança quando ela perguntou o preço! Mas, ao invés do macaquinho, ela mandou-me escolher um doce.
Quando eu tinha uns 13 anos, minha mãe caiu muito doente. Era úlcera ou gastrite, já não sei, mas fez com que ela emagrecesse muito e perdesse a alegria de viver em pouco tempo. Ficou dessa finurinha...! 48 quilos. É menos do que eu peso hoje, e sou bem miúda. No período mais crítico da moléstia da minha mãe, minha avó ficou uns dias lá em casa com a gente. Curiosamente, tenho poucas lembranças desse tempo – não saberia precisar se ela ficou uma semana, ou quase um mês... Só lembro que eu chegava da escola e minha avó tinha feito o almoço. Que ela fazia tão bem aquela massa tipo caseira! E, se é pra falar sobre comidas, eu amava o “mexido” de ovo dela; a galinha fritinha (quando eu ainda comia carne); o carinho com que nos providenciava café ou refrigerante ou bolachas... Na adolescência, ou logo na entrada da idade adulta (faz mais de 10 anos), devo ter ido dormir em sua casa mais de uma vez, eu e o Bruno. Ela sempre preparava a cama com tanto capricho, com várias e várias camadas de cobertas; e não pregava o olho enquanto a gente não ia dormir. Às vezes estava lá de olhinho pequeno – e eu, o mano e os primos (que geralmente escapavam pra lá, pra ficar com a gente) super animados, mas ela ficava rodeando, perguntando se não estávamos com sono... Até que nos rendíamos. A penúltima vez que fui lá ela ainda perguntou quando eu e o Bruno iríamos dormir lá de novo.
Meio bugra, ela também fez muitas benzeduras: contra quebranto, cobreiro, olho gordo, “tirar sol”, etc. etc. ... Minha vó sempre teve um altar com vários santos e santas, os quais ela acendia velas, benzia água, arruda, fazia rituais. A casa estava sempre cheia de gente estuporada para benzer, pois ela tinha esse dom da cura. Deus que me perdoe, e minha avó ia ficar louca se lesse isso... Mas tudo que era diabo com desnutrição, barriga d’água, herpes, lepra, unha encravada, bicho de pé, gente encalhada... Dava de tudo pra se benzer lá na minha avó. (Eu costumava ser arrogante com essas visitas. Desculpa, vó). Na última vez que me benzi com ela, há uns dois anos, ainda atontou e disse que eu estava com muita energia “carregada”. Isso era uma constante durante meus benzimentos.

Estou agora com o coração pequenino escrevendo tudo isso, porque precisava fazê-lo, embora eu deteste cada vez mais me expor minimamente que seja. Precisava, porque há menos de 15 dias estive com ela lúcida, conquanto bastante debilitada, e ela havia pedido muito para me ver. Devo dizer, vó, que apesar de estar morrendo de saudade de todos aí, eu só resolvi ir quando me disseram no telefone que a senhora insistiu em perguntar de mim, e em saber se eu iria visitá-la. E admito ainda que duvidei que a senhora estivesse tão ruinzinha, pois sempre foi uma muralha; mas é claro que chega um dia em que até as muralhas cedem... Por isso, eu não sei direito o que pensar nesse momento...

Minha avó paterna faleceu no último Natal. Um dia depois, na verdade. Ela também adoeceu quase de repente e o quadro evoluiu muito depressa – quando a vi, em novembro, tão frágil, tão dependente, tão magrinha... não pude conter as lágrimas. Eu não tenho quase nenhuma lembrança da minha avó paterna, Dona Antonieta – de infância, não tenho nenhuma. Mas vê-la daquela forma me entristeceu demais. Agora que está indo minha outra “véinha” – a qual eu não estive presente no último aniversário, que lhe deram uma festinha – eu venho pensando muitas coisas. E a principal delas é sobre um sentido para cada dia. Não para a vida. Bah, seria tão pretensioso! Mas, para cada dia. Com quem eu quero estar hoje? Eu gosto disso que estou fazendo? Por que estou me obrigando a fazer isso/ encontrar aquelx fulanx? Por que não mandei um alô a uma pessoa querida? Nosso atribulamento muitas vezes vai nos dizer que podemos deixar isso para daqui há uns dias, mas há tanto que a gente ignora sobre cada mínima ação. Sobre para onde ela pode nos levar ou arremessar, e sobre do que estamos abrindo mão a cada vez que escolhemos um ponto no futuro que ainda só supomos. É claro que para nada existem garantias, mas será que não é possível um meio termo entre aproveitar mais o agora e construir o amanhã ao mesmo tempo? Para que os dias possam valer, ao menos, como notas promissórias de um passado que não se foi em vão? Eu não sei. Deve ser o momento. Estou vendo tanta gente ao meu redor se entretendo a erigir castelos. Estão ali nos alicerces, mas desprezando todo o resto do reino. “Hey, que tal: essas coisas, essas pessoas e esses momentos que estão com vocês agora, irão embora”. Eu lhes aceno de vez em quando. Mas, eles estão ocupados demais firmando as bases do castelo... Não ouvem...

***

Dust in the wind...
Creio que não há nada mais a dizer, enquanto me muno de coragem diante de tudo que está acontecendo/ não está acontecendo. A dualidade está sempre presente – nunca pensei que eu fosse tão forte; nunca pensei que eu fosse tão fraca. Há tanta morte na vida; há tanta vida na morte.

Cerro, logo, minhas palavras por aqui – eu acho que sempre fui a neta que melhor se sai com as palavras, mas há horas nessa vida em que até elas nos desertam. Ficamos ali abobados, povoados de perguntas sem respostas e procurando de novo e de novo algum sentido, ou não-sentido... e, oh, a contradição outra vez: para o tudo e para o nada...