Certeza que é uma camiseta muito velha...
É engraçado observar alguns fenômenos no mundo, mas compreender que eles sempre estiveram e estarão lá, na maior parte do tempo sem que se tenha consciência. De quantos dogmas, rótulos, comportamentos, condicionamentos e padrões somos reféns indefinidamente, sem nos darmos conta disso? Por exemplo, se a pessoa segue um destino academicista, ela está fadada a ler e ler, e construir a sua imagem sobre os mais importantes pensadores, comentá-los, criticá-los, se especializar neles, posar para fotos com ares de intelectualidade... Se é feminista, não pode ser contra o aborto, questionar novos dogmas impostos, chamar parte da liberação feminina de falácia. Ou, então, temos ainda aqueles gurus espiritualistas para quem tudo o que acontece no mundo é responsabilidade de seus próprios protagonistas, apregoando que não existem vítimas – mesmo que a pessoa tenha nascido absolutamente em uma situação de penúria, indignidade e com pouca ou nenhuma chance de reverter o que acontece com ela. Li ontem no meu instagram que “há mundos melhores onde todos e todas podem ver a aura da pessoa mudando de cor quando ela está com raiva ou com ciúme”, mas se são mundos tão melhores, por que ainda há criaturas ciumentas e raivosas por esses tais lugares?
Talvez, de vez em quando, fosse necessário fazer um declutter nas camisetas, observar bem as cores das t-shirts e ver aquelas que já não combinam com a gente. Talvez, de vez em quando, fosse necessário trazer velhas camisetas de volta à moda ou, ao menos, não sentir vergonha por estar fora da moda se estiver vestindo elas. É que parece que vivemos num mundo onde tudo precisa ser ditado de fora e assim é muito fácil nos tornarmos prisioneiros das próprias supostas verdades que achávamos que nos libertariam. A linha entra prisão e liberdade, aliás, quando se trata dos múltiplos mundos das ideias, me parece uma linha muito tênue.

Olhar bem a si mesmo e quais camisetas escolheu vestir já seria bem emancipador. Mas a tendência é que continuemos estampando em nossas camisetas as ideologias que toda hora nos vêm prontas, ou comprando sem questionar as camisetas que nos vendem. Às vezes, prestamos mais atenção à cor do que à estampa...