E eu comento em voz alta que esqueci de ver o preço de tal chocolate, e minutos depois, já esquecida, vejo a sugestão do mesmo chocolate na minha timeline. Meu computador dá um tilt e conto por e-mail para o meu irmão, e antes da resposta dele, chega propaganda de uma dessas empresas grandes dizendo que eles têm o meu novo notebook. Depois, mando um áudio, concluindo que o limite do meu cartão de crédito não suportaria mais tal imprevisto e – pasme! – nos meus sms, uma mensagem do banco anunciando que aumentaram o meu limite. E o mais sutil, para não dizer invasivo: após uma conversa de duas horas sobre budismo com o celular em cima da mesa do café, duas ou três entidades zen solicitam para me seguir no Instagram. 

Tudo isso seria muito legal num episódio de Black Mirror, mas essas coisas realmente aconteceram comigo. Agora eu jogo um trapo qualquer sobre a câmera do meu computador sempre que saio do banho – já cometi o erro de ficar peladona diante de um desses televisores jovens e tenho muito receio de onde foram parar essas imagens. Já não sei o quanto qualquer coisa que eu diga ou escreva num documento pessoal está livre de olhos hostis – e para dizer a verdade, desconfio até do meu espelho. Estamos invadidos por todos os poros, nos nossos pensamentos mais secretos. A palavra “pensamento” não foi escolhida aleatoriamente: esses dias eu realmente estava apenas PENSANDO em determinada coisa, e essa coisa se materializou nas publicidades do meu notebook. Estou torcendo muito para que seja apenas uma coincidência. Afinal, tudo o que pensamos emite algumas ondas, não é? Não me surpreenderia formas tão desonestas de usurpação em uma matrix que decide todos os nossos contratos.

("- Ai, mimimi, não se dê tanta importância assim, o mundo tem 7 bilhões de pessoas..."
- Verdade, filhx, mas antes de pessoas, somos todos consumidores ;D)