Um mergulho mais profundo nos mistérios da alma resultou num “splash” difícil de voltar a emergir. Quem tenho sido eu nos últimos meses, nos últimos tempos? Aqueles velhos hábitos e retratos se tratavam da minha pessoa, ou eu apenas estava aquilo? Bom ou ruim, já não posso emitir juízos... O mergulho foi tão intenso que nem mesmo escrever – minha forma primordial de expressão, – tem se dado sem acidentes. Tem sido difícil transpor as sensações, abundâncias ou vazios, em letras. Por isso, este espaço no blog, que já quase não é preenchido. Tentei me disciplinar, criar metas semanais, mensais. Nada resulta. É um momento de suma cavidade, embora haja sempre tanto a dizer. É que há bem uns dois anos comecei a escavar a mim mesma e a desenterrar traumas, medos, sonhos, desejos; e passá-los por uma espécie de “scanner da alma”, para verificar o que era meu de verdade e o que apenas tinha sido colocado ali. Surpreendentemente, quase nada era meu... Tudo estava... Fui percebendo estruturas, condicionamentos, amarras, tapumes, por todos os lados e desde sempre... Impressões que cultivei, imagens que me impressionaram, modelos que acreditei, formatos que me assaltaram... TUDO. NADA me era original de fábrica... E me perdi de mim, ainda que tenha tanto me achado; apenas não podia e não posso mais reproduzir algumas coisas, ou ao menos tenho que ter ciência delas, e isso, por vezes, é então muito doloroso... E é tão surpreendente quando apenas passamos a ver as obviedades, isentando-as dos aspectos de verdade ou de mentira; de certo ou de errado – já aconteceu com você? (Nunca poderemos chegar a um consenso sobre isso...). Eles apenas estavam lá – aqueles velhos moldes rebarbados – e meu aparato “técnico” sem o suporte adequado para reconhecê-los. Não foram nem irão embora, agora continuam lá, no entanto, eu já posso vê-los de outra forma, conquanto nem todas as pessoas o possam, e muitos já estejam há anos luz dessa minha visão incipiente, mas isso em nada empobrece ou inferioriza o meu processo (todos estão sempre onde podem estar...). O que quero dizer é que nesse ritual de passagem perdi partes (importantes?) de mim no processo, e descobri outras, muito mais (ou tão quanto!) fantásticas... E já não sou eu em mim, aquele ser que fora, e isso pode causar dor, espanto, estranhamento e surpresa. Aliás, já nem sei se sou algo (sei bem que não me iluminei e estou bem longe disso, mas deixe-me dizer, eu já não consigo acolher toda aquela preguiça que se arrastava comigo antes. Não é uma preguiça literal – embora eu continue dorminhoca – mas uma preguiça de alma, que achava conveniente continuar cega, lesa e atrasada, sendo que já estava mais do que na hora de despertar!). Não sei mais o que me representa, me adjetiva, me convém, e também não quero lutar contra e ou nem me certificar disso. Estou em paz, estou vazia, estou zen, tudo o que vir está ok. E é por isso essa ausência, por isso esse espaço em branco, como uma folha que espera o lapso a ser preenchido, como uma memória que aguarda os arquivos para armazenar. Ainda não sei o que vem, deixei tudo pelo caminho – minhas vestes, tão puídas, oh! – e, que bom!, essa foi a melhor coisa (senão a mais rara) que já me aconteceu. Despiu-me a alma, os padrões velhos, arregaçados; os desejos pueris e mundanos; os laços crus e imperfeitos. Me rasgou ao meio, é verdade, mas depois tratou direitinho, e a cura só podia mesma vir por meio desses sacrifícios impelidos. Disfarçados de grandes perdas, cacos e desilusões, mas eu ganhei tanto...

É por isso que ando, assim, meio afastada. Ausente para os outros e órfã para mim. Órfã do meu antigo eu, das chistes, dos receios, dos desbotamentos e cores, dos andrajos sentimentalóides e da lógica assaz, de tudo o que me representava tão bem e malamente... Agora que o processo está quase no fim recomeço (nada tem fim, afinal...), talvez eu já possa voltar pra mim, perceber qual é, o que pode vir a ser... Ou não. E sem me apegar a nada. Pois, se tem algo que aprendi em todos os meus mergulhos profundos e silêncios é que a única permanência é a da mudança. Pelo menos, é a mais verdadeira. E há um tempo precioso sendo desperdiçado a traçar sonhos tão mundanos, que jamais falarão à alma... Mas há também muita vida ainda, e o tempo está todinho aí.