Ah, se eu soubesse tudo o que sei hoje, naqueles tempos... Ah, se eu me deixasse ser tão menos pertinaz na postura quanto observadora era, enquanto fui tímida. Quanta gente falando e falando – e só falando besteiras! Quanta gente se destacando pelas suas ideias – e pelo raso de suas ideias... Tem gente que pensa que timidez vem do sentimento de inferioridade, de ser menor ou menos que os outros: é nada! Timidez, muitas vezes, vem é do fato de se achar melhor e não querer que ninguém te veja errar. Vem da imaturidade em ser repreendido. Timidez vem da introspecção, muitas vezes aliada a um rico mundo interior, mas que a criação repressora (ou o mapa astral, ou tudo junto) não ensinou a manifestar. E vivemos em um mundo onde a extroversão é que é valorizada. Seja mais quietinh@, mais atent@, mais ponderad@, e veja o mundo caindo de pau em cima de você.
Aprendi a me expressar melhor fazendo aulas de teatro, mas meu tom de voz sempre foi baixo (e eu acho melhor assim). Porém, mesmo agora, sempre ouço alguém me repreender sutilmente, alegando que “falo pra dentro”; me cortar grotescamente, pelo fato de a minha fala ser pontuada; me criticar “suavemente” por eu preferir ouvir a falar nas aulas; por não compartilhar tudo o que sei; por guardar silêncio quando poderia expressar posicionamentos importantes. É que hoje não é mais timidez, pois eu poderia e sei falar muito bem (e faço bom uso da ferramenta de boa comunicação oral, já dei palestra e tudo). É que hoje reside em mim uma ponderação sobre o que e a quem vai ser dito, toda uma reverberação das consequências, e não me contento mais em jogar sementes em terrenos que sei inférteis, ou em compartilhar uma parte importante de mim com gente que não valoriza. Quem me conhece bem, sabe o manancial, que aqui existe, de boas conversas! Quase tão dependente delas que de chocolate e café. No entanto, já tive uma outra fase de tentar convencer o mundo das minhas convicções (sim, na época eram convicções. Hoje em dia sou mais solta), e percebi que essa é a faceta ainda mais perturbadora do que aquela outra de guardar tudo pra si. Certas falas jogam pra bem longe a possibilidade de bom entendimento. A aceitação é minada pelo tom agressivo do discurso, que impele só à reação, não à compreensão.
Aliás, deixo um convite: prestem mais atenção nos quietos. Gente quieta não é quieta à toa: como os mudos, eles usam muito mais os outros sentidos. Vêem e ouvem tudo. Sentem bastante vergonha alheia, com notável frequência. Muitas vezes, se agita dentro do peito do quieto uma miscelânea de sensações e opiniões, com tal riqueza de detalhes, que o quieto sequer se encontraria capaz de manifestar – e aí prefere não manifestar mesmo, fica quieto. Mas, vendo tudo, de olhos bem abertos.
Por outro lado, timidez também não é um charme. Estereotipa-se o tímido típico como alguém estabanado, cujo rubor eclode nas faces ao menor sinal de exposição; imagina-os, o imaginário popular, como umas múmias na cama, e como pessoas sem tempero adequado para o mundo social. Construtos pretensiosos de gente extrovertida! (Sim, nem todo introvertido é tímido; mas eu acho que 99% dos tímidos é introvertido). Hoje em dia, vejo que não perdi nada no tempo que eu era tímida. Mas, o mundo, sim, perdeu, e muito: opiniões articuladas, humor inteligente, companhia gostosa, acidez na medida. Era e sou tudo isso, mas demorei a desejar ou a saber colocar para fora. E já não sou tímida para admitir: que bom! A lição que ficou de tudo, é a de sempre prestar atenção nos supostos tímidos, e também, é claro, nos que querem parecer extrovertidos demais. Entre os quietos, obviamente, tem muita gente tansa também, mas volta e meia, a timidez está escondendo um sagaz observador do mundo e da humanidade, que ri em silêncio das bobagens dos demais, ou se autoflagela pela sua sensibilidade. Do mesmo modo, a extroversão – tão superestimada – muitas vezes só está revelando um tolo exibido e impostor, ou uma pessoa muito triste, que encontrou na desinibição uma boa e insuspeita máscara... 

Observei tudo isso há muito tempo, ainda quando eu era tímida.