Queria. Assim, no futuro do pretérito mesmo. Pois me parece que essa é aquela pecinha do status quo que ainda poucos de nós ousam questionar. Afinal, as viagens estão intrinsecamente ligadas à cultura, aventura, felicidade, novas vivências. É isso o que nos vendem o tempo todo: as empresas aéreas, as agências de turismo, de intercâmbio, as fotos na rede social. Porém, tenho atingido um lado menos superficial meu que tem questionado esse imperativo: por que gostar de viajar nunca parece ter um lado negativo (ou, ao menos, neutro?). Por que tudo o que diz respeito a sair de onde se está vem acompanhado de um quê de super, de máximo, de incrível – e os relatos de quem diz não gostar tanto assim são menosprezados?
Mudar de lugar está diretamente associado a um status social, a uma ideia de poder. No money, no travel, all right? Ou seja, quem sabe nossas mentes adormecidas não se convençam tão facilmente dessa maravilha toda porque queremos acreditar de verdade nisso? Que em outro lugar longínquo todos os nossos problemas, misérias, neuras, desapareceriam como que por encanto? Acreditar que somos mesmo a pessoa que fingimos ser nas fotos? (Ou que fomos, mas por um só momento...).
Sempre acreditei que eu gostasse de viajar. Bem cedo ainda embalaram o mapa mundi num embrulho dourado e me deram, e sempre achei que esse gosto era o maior dos presentes. Mas eu tenho refletido sobre tanta coisa e, de viagens, bem, tenho achado por aí pouca crítica sobre isso. O que eu mais vejo são pessoas construindo identidades em cima das viagens que realizou (quem não tem um/x amigx viajadx que paga que conhece o mundo todo?); turistas que se acham cidadãos; trechos do mapa colecionados como selos... Mas, que tipo de mentalidade social sobre isso estamos erigindo? Essa é uma formulação que ninguém se pergunta. A viagem traz aquele prazer momentâneo do novo, mas e depois, o que fica? Essas interrogações são apenas retalhos mentais sobre esse processo. Ninguém admite que estar do outro lado também faz sentir saudade do que é conhecido. Ninguém admite que tem autoestima baixa e síndrome de vira-lata envolvidos. Ninguém admite que se estressou, perdeu a mala, o hotel não era o que esperava, sofreu racismo, machismo, xenofobia. Ninguém admite que limpou banheiro de pub até de madrugada; que se incomodou na imigração; que no começo não entendia nem o “The book is under table”. Todo mundo só mostra o lado lindo, menos perverso. E é bem verdade que ele (o lado lindo) existe, afinal, poucas coisas me parecem mais relaxantes do que estar pela primeira vez em um lugar, seja ele natural ou cosmopolita. Logo, a ideia não é negar alguma coisa, apenas trazer à luz um outro lado. Agora, morando em uma cidade turística, posso compreender um pouco do quão ruim é para quem mora na cidade esses enxames de turistas que aparecem em épocas sazonais. Imagine então naquelas grandes capitais do mundo, em que o movimento nem sazonal é...? Como se reconhecem as pessoas que nascem nesses lugares?
Vivemos uma época em que a mistureba, o multiculturalismo, a globalização – tudo (parece) é altamente incentivado. Isso permite que nenhum de nós edifique um senso de comunidade ou de pertença, vivenciando de modo simbiótico essa “natureza” meio nômade que a época em que nascemos como que nos vestiu. Todo mundo acha bom mesclar tudo, mas esse pode ser o início do fim das civilizações. Afinal, não conversamos com o vizinho do outro apartamento, mas nos é tão automático fazer amizade com um estrangeiro no hostel. Somos mesmo sociáveis assim ou discernimos muito bem os laços que precisamos destrinchar para convergir aos nossos interesses? Viajar é mesmo lindo, ou uma forma de alimentar com espinafre o nosso narcisismo?

Eu não sei mais ordenar as ideias, talvez mais adiante eu volte ao assunto com questões mais definidas – talvez seja necessário. O importante aqui não era ter qualquer resposta – um status quo dificilmente é quebrado e o máximo que eu conseguiria seria uma alcunha de recalcada. Mas, esmiuçar essas proposições de uma maneira desinteressada já foi bem empoderador, porque sei que ainda vou viajar muito, e não quero levar na bagagem essa sensação de extraordinário que vejo tanto. Isso aliado a um espírito de pouca exposição (sempre admirei aquelas pessoas que já foram por tudo sem postar nenhuma foto!) e muita exploração, quero saber as minhas próprias formas de reagir e nada melhor para isso que vasculhar e especular o meu modo pessoal de ser viajante, sem desmerecê-lo nem enaltecê-lo ante o de ninguém. Aqui, não se trata de comparar, mas de entender um processo, que pela dimensão, acredito, hoje já seja um fenômeno social pouco ou nada estudado.