Tarot de Marselha

Faz já mais de um ano que adquiri o meu primeiro deck. Não foi algo premeditado, apenas estava olhando uma dessas lojas de esoterismo quando no balcão ele me acenou. O queridinho Lenormand, que eu já havia travado contato umas duas ou três vezes na vida. Que mulher nunca foi em uma cartomante...?
Antes de ter um baralho, eu lidava com essas coisas como um fenômeno extrafísico. Acreditava que realmente havia algo diferente quando aquelas senhoras “acertavam” a minha sorte, e tentava justificá-las quando as coisas corriam de outro modo que o ‘previsto’ (afinal, sempre tive uma inclinação para o que chamam de místico). Mas, ter um baralho me mostrou que muita responsabilidade se tem quando lidamos com intuição e energias. Se, no começo, eu brincava com questões do meu dia a dia, com o tempo passei a jogar para amigas e amigos e sempre com uma margem de acertos muito alta. O retorno deles me deixava envaidecida, me crendo uma grande médium, muitas vezes ignorando como após as leituras eu ficava desgastada (e em algumas, não me recuperava mesmo dormindo horas!). Além disso, nem sempre é confortável se saber de algo com alguma antecedência. É preciso maturidade e assertividade para conduzir as ações do melhor modo e não criar dependência com as consultas oraculares.
Para quem acha que estudar filosofia e conhecer/ acreditar em oráculos não tem nada a ver, sugiro que investigue sobre o Oráculo de Delfos. Aliás, se formos levar em conta a história dos oráculos, ela remonta à antiguidade, sempre tratada de maneira segura e respeitosa, sem a grande aura de embuste que rege nossos dias. Então, por que abordar esse tema parece tão ignorante? Ora, creio que parte pelo espírito científico de nossos tempos, que rebaixa qualquer manifestação sensível, e parte pela falta de seriedade que, de fato, muitas pessoas que atuam com fenômenos os mais diversos acabam promovendo. Quando comprei o meu baralho, o fiz no intuito de buscar orientação e auxílio e me eduquei a não ficá-lo consultando com pormenores e curiosidades (bem... eu tento!). Estranhamente, quando se trata de mim mesma, a margem de acertos não é tão alta, e imagino que isso se dê pela ansiedade envolvendo as respostas e o próprio desejo, em alguns casos, que tende a me fazer interpretar as cartas de uma forma e não de outra. De qualquer maneira, se o Lenormand, meu primeiro amigo oracular, permitia isso, não consigo puxar a brasa para a minha sardinha com o Tarot Zen do Osho – meu segundo deck. Esse é tapa na cara: o que eu perguntar ali, ele vai responder certinho, sem escapatórias. É um oráculo da alma mesmo! Gosto da leveza e profundidade das cartas do Osho, pois elas trazem verdades irrefutáveis e apenas ler o livro explicativo que vem com elas já traz um alento imenso pro nosso espírito (juro que não estou recebendo nada pra escrever isso!).
O terceiro (e, por enquanto, último) deck que eu tenho é o Tarot de Marselha. Esse eu ainda estou conhecendo e criando familiaridade com as cartas. Acho que o estudo dessas coisas me relaxa e me coloca em contato com uma parte de mim que, de outro modo, talvez não conseguiria. É como qualquer outro hobby, que a gente pega na unha com disciplina e aos poucos vai aprendendo. Uma nova língua.
Não tenho ambição de convencer ninguém que exista qualquer coisa, embora, do mesmo modo que ateus e cartesianos, no fundo, não respeitam quem não pensa como eles, igualmente não tenho uma compreensão altamente receptiva a quem tenta me convencer do contrário do que acredito. Há em mim aceitação para a crença alheia, sem desrespeito, mas não há abertura para alguém tentar me dizer o que funciona ou não para mim. Afinal, todos nós desenvolvemos as nossas próprias ferramentas, e sabemos quais delas são efetivas ou se mostram falsas. Quis falar dos decks, ou de oráculos, porque nos últimos tempos eles têm me mostrado vários caminhos, que talvez eu precisasse tatear mais no escuro, se não os tivesse. Como se tornaram instrumentos referenciais para o meu autoconhecimento, fica aqui a proposta para quem também busque formas alternativas de se conhecer.
Existem discursos reinantes sobre a inferioridade desses processos seculares em comparação com nossa jovem ciência, mas existem também pessoas sensíveis, capazes de darem margem ao que vai além do que vêem – àquilo que sentem. E que oráculo vai determinar o que é ou não uma questão de inteligência? Deixa ver que carta eu tiro aqui... Hum: Paciência.     


Obs.: Eu tirei essa carta mesmo, não foi embuste.