Parei para refletir por que, muitas vezes, somos invadidos por uma constante vontade de “compartilhar com o mundo” os nossos sentimentos de plenitude e realização. Para uns mais, para outros menos, mas é difícil encontrar alguém que já adentrou as cancelas do mundo virtual e que não se coce para postar alguma coisa, de vez em quando... em sua timeline. Romances, viagens, aventuras, gulodices*: a vontade parece sempre vir quando estamos imensamente satisfeitos. Só que na hora que vamos compartilhar algo, nunca paramos para pensar que, no fundo, as pessoas estão pouco se lixando para o nosso cotidiano... Aquele café lindo no Starbucks, com muito chantilly. O pão que você ta assando e ficará maravilhoso (o meu ficou sublime!). Presentes, celebrações, mudanças, cozinhas...

Investigando em mim, quando posto algo, faço isso de uma forma bastante desinteressada (me parece), mas concluo que minto: continuaria sem me afetar se não recebesse nenhum like? Se aquela amiga não curtisse? Se é tão desinteressado o meu gesto, consigo fazer isso sem publicar?
Não há nada de errado em mostrar a nossa felicidade. Mas, se começarmos a esmiuçar nossos atos (ou o porquê de nossos comportamentos), especialmente nas redes, verificaremos que as próprias redes não existiriam não fosse aquela curiosidade, aquela competição, aquela "invasão" muito humanas em direção à vida do outro. A discrição hoje em dia é artigo raro.
Tenho a felicidade de conhecer umas poucas pessoas discretas e venho tentando aprender com elas. Pessoas de uma simplicidade invejável, quase sem ego mesmo. Que já assassinaram em si, ou nunca tiveram, essa necessidade de ficar divulgando façanhas, saídas para o barzinho, tardes ensolaradas na praia, bolos de chocolate suculentos (essa eu já fiz também, haha!), e que geralmente nem conseguem manter redes sociais. Pois, afinal, o que nos motiva verdadeiramente a compartilhar nossas vidas? Será que eu quereria os meus 109 followers do instagram na mesa do café, repartindo o bolo de chocolate (ou o pão que tirei agorinha) comigo? Ou toda essa gente testemunhando o carinho que troco com meu namorado? A resposta é óbvia, mas não é a sugestão que deixamos ao postar a imagem do bolo ou do chamego do casal. Parece que aquilo deixa de ser uma coisa particularmente sua. Se torna público para os outros não somente olharem, mas criticarem e avaliarem. E que quantidade de pessoas eu estou autorizando a entrar na minha intimidade, no meu mundo, por pura carência? Por que esse convite tão generoso? E, se não for carência, que outros sentimentos estão envolvidos? Do que são compostos? Uma esperança ardente de que ficarão felizes comigo? O desejo sincero de que todos estivessem acessando a mesma felicidade? Será que não tem ego... mesmo?
Eu não sei, talvez eu seja anormal, reviro muito essas coisas na minha cabeça, além de passar longos períodos sem vontade de compartilhar absolutamente nada do meu dia a dia. E, olha, são momentos felizes, muitas vezes. Daí acabo me achando antissocial por não ter essa super vontade de publicar as imagens da minha vida, as coisas legais e bonitas que tem nela, a euforia ou a alegria... (Eu ia escrever ‘felicidade’, mas acho que a palavra alegria é mais conveniente, pois tudo aquilo que dispomos de tempo para fotografar são, geralmente, coisas tão fugazes... Ou não é? De coisas realmente felizes, será que temos a necessidade, ou a paciência, ou o desejo – enfim – ... de pegar a câmera... achar o melhor ângulo... ou bater uma foto de qualquer jeito e torcer para ficar bonitinha... ou bater milhares... e escolher uma... e entrar no aplicativo... e eleger um filtro... e... e... Não, né, gente? Será que eu vivo num planeta distante por não achar isso tudo natural?). Clique aqui e veja vários casos de pessoas que morreram buscando a selfie perfeita.
Mas, mesmo não achando que esse sentimento nasceu conosco, eu sei que ele não é exclusividade de ninguém. E é por isso mesmo que me pego pensando no automatismo da questão e de como a ausência de questionamento dessa condição pode nos iludir, auto enganar. Ou de como viver para "captar o melhor ângulo" pode interferir na experiência real, esta sim, incomensurável, incomparável e intransferível.
E, olha só, eu pretendia escrever sobre discrição, e acabei percorrendo caminhos sobre exposição virtual. Mas é que, nesses nossos tempos, uma coisa está diametralmente ligada à outra. Como comentei, conheço umas poucas pessoas discretas, mas são verdadeiramente poucas. Tem gente que eu conheço que posta até umas imagens de comidas feias, mordidas, babadas, a louça suja, etc. (O apelo estético da minha quase lua em touro** implorando!!). Ou beijos do casal (foto de pobre); ou foto do casal no perfil de um indivíduo (virada de olho); ou mini vídeo do rádio do automóvel com o nome da canção; ou meninas lindas com seus super decotes; ou bebês de meses rindo ou chorando... Que vazio é esse que nossa sociedade tem; do que se alimenta; como se livrar dele sem dar acesso direto à própria privacidade...? Parece tão banal expor tanta vida íntima – todo mundo faz, afinal; – mas, o quanto podemos estar comprometendo aquilo que é só nosso, ou até mesmo a nossa segurança, simplesmente por uma total indiscrição sobre a nossa vida? Quando perdemos o fio da meada?

Hoje em dia, para mim, é muito fácil discorrer sobre tudo isso, porque faz já um tempo que perdi essa vontade de me colocar na vitrine do mundo. Não que eu esteja imune, mas os holofotes ilusórios da exposição me alcançam muito menos. Foi apenas um amadurecimento natural aliado a um policiamento diário da necessidade de expor isto ou aquilo. Fiz um facebook ano passado, contudo, fui obrigada a deletá-lo (não dava!); ainda assim, aprecio coisas lindas e faço atividades que me dão prazer diariamente, mas não sinto mais tanto aquela vontade de espalhar num megafone nem fotografar nada (mas quando sinto, não repudio. Até bato a foto, me pergunto intimamente qual a importância para mim em publicá-la, se o momento em si mesmo não me deu o bastante, e o que me acrescentaria divulgar isso. Muito post foi abortado a partir desses pensamentos). E, como já não tenho tanta vontade assim de contar de mim e nem de saber demais dos outros, me obrigo a dissertar sobre essas reflexões (que talvez não existissem se eu continuasse no modo automático). Não encaro como uma crítica a quem ainda faz, mas como a ousadia de trazer à tona um pensamento que (eu espero!) volta e meia todo mundo tem (= Que que eu quero saber se a Joaninha comeu filé?!).
Enfim, não há muito mais a ser dito. Basta analisar o que pipoca na sua linha do tempo ou examinar cuidadosamente as próprias postagens para se ver que nada do que está ali importa para alguém de verdade, exceto você. Ou melhor, quem está vivendo aquilo contigo. Nesse caso, muitas vezes, seria mais libertador deixar pra lá a câmera, o beijinho no ombro ou o beicinho e estar 100% presença naquele instante que nunca mais vai voltar. Talvez seja a coisa mais difícil nesses tempos modernos, - aliás, talvez, igualmente, deixe um vazio viver assim, sem postar, - mas, pelo menos, soaria um tanto mais autêntico que seguir disfarçando tanto potencial em registros que serão eternos por apenas 15 likes.

*Li por aí que adotar o termo “gordice” é um preconceito com pessoas gordas, mas eu usava essa palavra com tanto carinho... Vamos ver se consigo substituir por “gulodice”.

**Toda vida minha lua foi áries, mas recentemente descobri que quando eu nasci a lua estava saindo de áries e entrando em touro. Por isso, tenho características dos dois signos no que tange à lua (so crazy! =P).


Editado: Encontrei esse pequeno vídeo do Karnal que também fala sobre os likes.