Conversa de bastidor antes da aula. (A original foi muito mais enfática, espontânea, gostosa, pontuada com uns risos e uns silêncios reflexivos... Mas se por ventura, um dia, meu colega ler, vai saber que foi a prosa que tive com ele).

- Agora me mudei para um lugar onde tem gente de verdade. À la Hommer Simpson, sim. As pessoas trabalham de dia, veem TV à noite. Já casaram, se reproduziram. Onde eu morava antes, só tinha estudante. Todo mundo era meio ermitão. Aquele silêncio (saudade...!), gente estranha, esquisita. A mais esparrenta e fiasquenta era rechaçada por todas.
- Mas é isso que faz o “homem da massa” feliz, hem. Ver o Jornal Nacional, a novela das 9...
- Pra mim é tão estranho tanta gente com TV. Não esqueça do consumo; da troca de carro... Muitas e muitas vezes eu já quis ser essa pessoa da massa, sabe... Essa personagem da minha tese. Não pensar muito, não (querer) saber... Só fazer “o meu”, presa à monotonia da vida que se repete...
- Se for mulher, cuidar do maridinho (risos). Se for homem, tratar de sustentar a casa... Ter uma série de barrigudinhos... Fim.
- (Socorro!!) Que vão fazer tudo igual, haha...! Sim.
- Ah, mas será, Kelly...? No fundo, no fundo não, fala a verdade?
- Eu falo na completa ignorância, acho que me frustraria...
- Porque, veja só, o nosso tipo de felicidade é uma coisa tão mais singela... Não precisa a casa super chique, mas um bom cantinho, confortável, aconchegante...
- Livros!
- Muitoooos livros... E um bom cantinho pra leitura, um...
- Uma poltrona gostosa, boa iluminação!!
- Boa iluminação, UMA INTERNET BOA!
- Internet boa!! Sim, sim...
- Boa e constante.
- Ah, que luxo...
- E café... Não “qualquer” café...
- Café do melhor, café colombiano.
- Vê, a gente, no fundo, parece querer menos, mas na real, a nossa felicidade é um tanto mais exigente. Relacionamentos: a gente não se satisfaz com qualquer relacionamento. Tem que ser O relacionamento. Senão nem quero. Você também não é assim?
- Verdade. Exige mais coisas. Tem que ser regado a muita conversa boa. E não “qualquer” conversa... Tem que saber falar do que a gente fala, rs.
- E saber ouvir, trocar ideias, não impor as ideias dela. Política, por exemplo. Pra mim é inconcebível namorar alguém que não discuta política.
- Claro! Toda a questão política-social-econômica... E com propriedade; até debate precisa rolar. E cultura. E ser, minimamente, desconstruído. Com valores parecidos. E imagina isso: encontrar alguém que você tenha tesão na pessoa. Que vá a conversas profundas. E te ofereça essas coisinhas... e a pessoa sentir o mesmo em você, rs.
- Que sonho! Uma vez eu era contra as pessoas casarem cedo, mas hoje em dia eu digo: encontrou, fechou pros dois: casa! Porque tá difícil. Já tive uns rolos desde que cheguei aqui, mas ninguém que eu dissesse: quero! Só rolo mesmo.
- É culpa da nossa felicidade exigente.
- Felicidade possível. Se é pra ser infeliz, que seja sozinho, mas no meu cantinho confortável, com muitos livros...
- Bom café...!
- É, bom café. E sem televisão.
- E sem rádio. Gente da massa gosta de um rádio.
- Música boa.
- Rara.
- É isso. Felicidade possível. Livros, café, boa conversa.
- Política, sexo e filosofia. Algo mais?
- Internet boa!!
- Hahaha! (#quero :p)
Entramos pra aula.