Perdida em meio a tanta caixa, tanta coisa minha, a bagunça da minha existência. Como cabia tanta Kelly naquele espaço tão pequeno...? De repente, lembro-me das outras mudanças na minha vida.
A primeira eu era bem pequena, tinha 4 a 5 anos. Lembro-me que uns tempos antes o falecido esposo da minha avó (eu o chamaria de avô, se não tivesse sempre preservada dele, pois tinha fama de tarado – e acho que não era só fama mesmo, oras a morte não transforma ninguém em santo) apareceu em casa com um caminhão baú, ainda lá em Porto Alegre, no bairro Menino Deus. Não sei dizer se meus pais já estavam divorciados, só lembro desse gesto simbólico: o Sebastião parado lá com as portas do caminhão escancaradas. Mas nos mudamos só um tempo depois – e não sei precisar quanto. Minha memória infantil guarda a lembrança das coisas amarradas na camioneta; a máquina de lavar que teve que ficar; a vontade de ir na cabine do caminhão (mas fui para a nova cidade de ônibus); a dor de garganta na chegada (bem vinda a Caxias do Sul!). E depois dali a sentida drástica da queda no padrão de vida: de criança mimada a quem nada faltava, de repente, não tinha nem um quarto. Na primeira noite na casa do meu tio, dormindo em um colchão no chão, ao levantar pisei o carrinho de brinquedo recém adquirido do meu irmão mais velho – e quebrou. Ele chorou e eu fiquei me sentindo desgraçada, chorando junto, porque não queria quebrar. Depois, vingativo, ele queria quebrar meu jogo de casinha, e eu precisava escondê-lo. Éramos tão pequenos, não entendíamos nada. Hoje sei que aqueles choros não eram pelos brinquedos.
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Depois, mais tarde, veio a mudança para a nossa nova casa, casa própria da minha mãe. É, aliás, a casa que ela mora até hoje, embora já não seja mais a mesma. Sofreu tantas alterações, reformas, “puxados” (risos); definitivamente, já não é a mesma casa, embora fique ainda no mesmo terreno. Ao lado do mesmo campo que nos viu crescer. Dessa mudança, lembro especialmente do cheiro de tinta fresca. Tinta fresca verde água (por dentro). Por fora, a casa era amarelinha com janelas cinzas. De madeira. Tinha uma areazinha e uma escada de dez degraus. Infelizmente, não há fotos que confirmem meus apontamentos.
Lembro ali da primeira amiga que fiz: Pati Bernardo. Menina linda, de olhos muito verdes. Ainda lembro do aniversário dela: 23 de agosto. E da risada.
Junto, todo o período conturbado de adaptação, o tanque pintado de vermelho, a sala estreita, o quarto único. Ah, e como não podia deixar de ser, lembro do poço, nos fundos, sempre com água muito cristalina!
Pois bem, tudo isso e mais um pouco me vindo à memória enquanto colocava coisas e mais coisas nas caixas, agora, já bem crescida, aqui em Florianópolis. Minha primeira mudança sozinha, pois, ano passado vim com duas malas gigantes, e tinha motorista me buscando na rodoviária direto para meu studio; o restante das coisas, fui trazendo aos poucos, e a grande maioria adquiri aqui mesmo. Mas, agora; agora sim, foi uma mudança, uma mudança minha, uma mudança sozinha, e uma mudança de paradigma. O novo apê está cheio de caixas e já tem meu jeito impresso em vários lugares, até nos cheiros dos produtos de limpeza que eu gosto. Recebeu aquele trato antes de eu partir de vez e, enquanto ia “me mudando aos poucos” (coisa de uns 4 dias), fui também me despedindo das reminiscências do local antigo. O maravilhamento no dia que cheguei; a emoção da primeira visita (Eliezer, foi inesquecível!); os cafés com amigas; conversas, risadas, tudo de gostoso que eu vivi aqui. Claro que eu sou grata. E não vou esquecer nunca que esse foi o meu primeiro cantinho. Mas sempre chega um momento em que a gente precisa se permitir a viver coisas novas, se desapegar de tudo o que barra o nosso progresso e encarar aquilo que dá medo, que é diferente. O seguro é muito convencional! O mesmo trajeto todas as noites. A mesma rotina todos os dias. Os mesmos mercados, mesmos postos de gasolina, mesmo dia de recolher o lixo, mesma vizinhança com cara de bunda. Não é bem melhor ousar?
Já fazia um tempo que estava procurando um novo lugar, mas tinha a minha listinha e enquanto não ticasse a maior parte dos itens, não iria ficar contente. A conclusão que eu cheguei é que, às vezes, o apego maior está na ilusão da economia, da segurança financeira, que nos faz ser mesquinhos conosco mesmos, mas gastar com coisas tolas, que depois nem se sabe onde está indo...! Optei por viver melhor. Tenha o custo que for. Ter espaço, ter paz, ter liberdade para receber quem eu quiser, quando e como eu quiser! Optei por convidar amigxs para passar o revéillon na ilha, se eu quiser. Optei por ter uma box imensa só pra mim (ou não =P); em ter um bom local de trabalho (a tesuda* merece!!), em passar o tempo que me resta em Florianópolis com todo conforto e amor possíveis... Porque o dia de hoje vale muito. Não dá pra perder tudo de bom que o hoje oferta seduzida pelas promessas de um amanhã incerto.
Mas eu não posso ser injusta com tudo de bom que vivi no meu primeiro cantinho, e entre tanta coisa boa, devo destacar a nossa despedida: uma sesta de tarde, entre as 14 e as 18h – coisa espontânea que não fazia há tanto tempo! ... E uma conversa deliciosa que envolveu até o outro lado da lua e o reitor da UFSC tomando margarita nas Ilhas Maldivas, com a grande amiga que fiz aqui, talvez uma das maiores recompensas de aqui ter vivido!
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Todas as mudanças em nossas vidas sempre vêm com um quê de furacão, que passa arrastando tudo. Mas, é isso: passa, a gente sobrevive pra contar depois e ainda vive muita, muita coisa boa! Eu digo isso porque já percebi que mudança nunca vem sozinha, numa área só. Mas, agora estou treinada: que venham outras...! A aventura desse fim de jornada tem me feito mesmo nascer de novo. Por isso, saúdo: Bem vinda, vida nova!

*Tesuda é o nome da minha tese.