Praia do Forte

Faltam ainda dois...
Nesse tempo, quanta coisa. Mas, foi tão, tão rápido! Tão rápido para mudar e morar sozinha – um plano de tanto tempo...! Tão rápido para pegar desenvoltura no volante (loading...). A manha do supermercado, das rotinas próprias, da (in)disciplina dos estudos. As pessoas que conheci. Faz tão pouco, mas muito, e eu enriqueci tanto em conhecimento, (pós graduação) em relações humanas... Ao mesmo tempo que, por vezes, me sinto tão sozinha...
Quase dois anos e eu ainda não desbravei a ilha toda (alguém consegue?), não fiz nenhuma trilha, fui menos à praia do que eu pensei que iria (ou gostaria), não explorei os restaurantes vegetarianos, não fui em nenhuma balada, sequer encarei o norte (São José, Palhoça, afins...). Já me perdi, me encontrei, descobri atalhos, procurei endereços, dirigi a 100 por hora (só uma vez); fiz muita coisa, peguei estradas e pontes, mas ainda não descobri o caminho para o coração de ninguém. São quase mais dois anos e eu não quero imaginar que estes também podem passar mui depressa, e me levar daqui, me levar pra longe, para nunca mais, nunca mais o sol queimando sobre meus cabelos dourados ao fim da tarde, caminhando perto do Shopping Iguatemi enquanto me ignoram os faróis dos carros, as pessoas fazendo cooper e os ciclistas no crepúsculo. Nunca mais a UFSC ensolarada, florida e arborizada; domingos quentes e cachorros jogando frisbie com os donos; meninas de shorts jeans e caras na calçada dos bares fedendo a cerveja.
Que lembrança será que será carregada depois que tudo partir, e eu me for, ou não for – eu sei lá, – será possível pensar que em alguns anos vou lembrar da minha primeira kitnet pálida e sentir saudades? Saudades da paz daqueles dias mornos; do silêncio da minha solitude translúcida; de quando me dava a loca e eu simplesmente metia um bolo de chocolate e brigadeiro; dos cinemas com as amigas; das dezenas de chás, cafés. Saudades de ter que me ocupar em escolher um filme qualquer enquanto fujo do meu compromisso com a tese, porque afinal eu tenho tempo; e estouro uma pipoca com manteiga e chocolate e esqueço de me pesar na próxima segunda-feira... Ah, Hannah Arendt... Será que você testava uma receitinha, volta e meia, enquanto escrevia “A vida do espírito”? (Nem de vez em quando...?).
Faz dois anos já e eu ainda não encontrei nenhum motivo para ficar, embora eu diga tanto a mim se preciso partir; tenho até alguns planos para depois, mas confesso que eles não dependem só de mim, e nessa onda eu vou me despedindo das tardes quentes do Santinho, ou da Joaca, minhas praias favoritas, mesmo que eu não conheça todas (e possivelmente nem venha a conhecer), e da juventude que ainda saúda meu corpo, embora aquela velha, idosa alma.
Ah, é que dois anos parece pouco mas é muito; e que dois anos parece muito mas é pouco; e quatro anos não é muito, mas suficiente, e daqui dois anos eu já nem sei quem eu vou ser para poder afirmar qualquer coisa. Quem eu era há dois anos atrás mesmo?
Não faz dois anos, é verdade; eu moro aqui há um ano e oito meses; mas dois anos atrás a vida, ou o destino (se é que existe essa coisa presunçosa) já estava armando para eu vir parar aqui; e eu lembro como se fosse ontem das sensações: uma semana de processo seletivo; Beira Mar Norte; cervejaria artesanal em Santo Antônio de Lisboa; praia com as meninas. Keyla e Manu, o nome delas. Ambas lindas, uma gaúcha e a outra do Pará; uma feliz, a outra fora do mundo. Fazia um ano que Keyla estava aqui e nesse meio tempo, do lado de lá, faleceu do nada o pai amado, o pai amigo, que fazia tudo por ela e a incentivava a estar aqui... Ela soube quando chegou lá, alguém ligou, pai no hospital, foi correndo, mas era mentira, ou melhor, era omissão, pai estava morto... Foi em julho de 2015, estávamos em novembro e Keyla desabafava-me sua dor num ônibus, infeliz, desgraçada; e o ônibus sacolejava indiferente a ela nas curvas da Lagoa, e eu olhava à janela longe, muito longe, pensando em todos esses desencontros da vida e da morte enquanto ouvia e via que o sol assistia calado a qualquer esperança ou dor...
Um ano e oito meses, e teve também a Gabi, que foi a primeira pessoa que me deu um abraço em Florianópolis depois que eu me mudei, e que eu nunca vi mais. Era Gabi mesmo, não Gabriela; e a irmã era Malu (não Maria Lúcia ou Maria Luíza), e tivemos só a singeleza de um abraço e de um encontro.

Faz dois anos quase, tem só dois anos (quase), e é formidável que daqui uns 30 meses eu me depare com as coisas que eu tiver vivido até ali e fique assim, tão surpresa, que tudo já passou, e tão rápido, de novo. É verdade que eu queria mais caminhadas; mais areia nos pés; mais banhos de mar; mais estradas sem fim... Queria também umas noites à beira d’água, uns beijos e amor molhados, um inverno menos introspectivo, mais uns cafés com boa conversa, e uma tese em dia que é uma beleza... Mas, sabe, gente, não acontece quase nada em dois anos, é uma lástima!; e acontecem milhares de coisas em duas horas, uma proeza!; quem sabe o melhor é deixar estar e ver o que a vida (ou o destino, se é que existe essa coisa presunçosa) vai ditar à data, porque passa voando... E eu não estou nem um pouquinho ansiosa. É como diz aquela música, apenas: I dont wanna miss a thing. E em dois anos (quase), talvez a gente reflete de novo.