Parece o vazio que eu sinto: fito a folha em branco. O mar e suas ondas que quebram. O pássaro que voa sozinho.

É a saudade que chega e não avisa, se achega e faz morada, não pede licença e nem deixa muito certo se uma hora vai embora. É a saudade que traz nome, sobrenome – sorriso e identidade; – saudade que ignora que suas leituras estão atrasadas, você precisa melhorar outro idioma e tem deveres cotidianos a cumprir. É a saudade atemporal, maldosa, marota, que traz de longe um cheiro, um toque, um momento; saudade que diz que o agora poderia ser mais precioso, que o ontem é um adeus e que o amanhã pode, de novo, fazer chorar. É a saudade da indiferença, do egoísmo, do “to nem aí”, travestidos de atitudes e gestos que um dia significaram algo. Saudade da fantasia, do quando se podia sonhar; saudade do sonho mesmo, já que a realidade, muitas vezes, nunca aos seus pés pode chegar. Saudade até daquilo que não aconteceu, do que só foi imaginado; saudade do desejo, do gozo (incompleto), da ternura permitida, da simples proximidade. Porque tem distância que é mais dura, tem distância que se disfarça, e tem distância que afasta, mesmo nunca estando lá.

Saudade, enfim, mais do talvez que do certo; mais de um instante congelado num tempo que nunca existiu, de fato; mais do gosto da fé inocente que inicia qualquer empreendimento. É mais que a saudade de um beijo, ou de um corpo, ou de uma letra; é, antes, a saudade da gente mesma que se perdeu no lodo das dores e não sabe mais o caminho de volta para si.