Como anular essa marca divisória que sangra o calendário ao meio e recomeça do zero, pedindo para a esperança voltar? Como ignorar que a Terra completou mais uma volta e, em muitos pontos, você nem se sentiu sair do lugar? Vinte e dois de dezembro, penúltima sexta-feira do ano. O ano novo já desponta e o clima é de introspecção, na reflexão silenciosa do que o velho deixou de herança e o que foi apenas quinquilharia inútil. A passagem de ano (ou o aniversário, às vezes) têm um papel de definir um ponto de partida sem, necessariamente, ter sido solicitado: simplesmente é assim que tem de ser. E pode ser que seja isto que rasga aquela expressiva saudade, não se sabe de que, não se sabe de onde, a cada mês de dezembro. As despedidas e os recomeços que se encerram; os avanços e a perspectiva dos sonhos novos. Na ilusão ou secreto desejo de réveillon, parece haver a ingenuidade de que tudo seja possível. “Sim! Agora eu vou emagrecer. Vou parar de fumar. Vou arrumar um emprego”. Quanta coisa que não exige se é sexta ou segunda-feira! Quanta meta de ano novo segregada a esse momento específico. Porém, obviamente, quanto mais velhos vamos ficando (ou, quem sabe, isso tem a ver com experiência e maturidade), mais vemos quão dispensável é essa impressão em tinteiro do que se quer ou do que se “deve”. Além de estarmos mais cumulados de obrigações, estamos também mais cansados das metas que não dependem da gente; mais calejados das tentativas anteriores; mais encardidos das batalhas já lutadas. É por isso que chega uma altura da vida que qualquer frase de efeito é bobagem: em primeiro de janeiro eu não vou me tornar vegana; não vou virar voluntária dos velhinhos carentes; não vou desenvolver mais a minha espiritualidade. Principalmente, porque a decisão é uma dessas coisas que não se marca no calendário e a prova mais sutil de que se quiséssemos, de fato, (fazer, ser melhor em) algo, puramente daríamos o primeiro passo. Quando você já sai de um ano sobrecarregado, não quer adentrar o outro cheio de epinefrina. Tem vezes que o silêncio após os fogos e algumas horas de sono restaurador bastam. Cuidar bem do estômago nos exageros das ceias é mais feliz que qualquer dieta. Manter o que já se tem e o que já se é, satisfaz. Você apenas percebe que já está suficiente.
Em 2018 eu não tenho uma longa lista de objetivos possíveis e impossíveis, que fariam meu peito vibrar e meus olhos brilharem de emoção. Restam algumas ideias em mente – nada (muito, dependendo do ponto de vista) torturante, – e a decisão de me bancar em cada passo que me sentir preparada para trilhar. Afinal, não foram os 31 dias de dezembro que proporcionaram esse preparo. Ou, os mais ou menos 365 de 2017, que me atenderam no ferramental. Para suportar tanta coisa, foram as três décadas inteiras que vieram antes, que pouco a pouco, foram me preenchendo com as características necessárias a viver tudo o que virá. Então, por que eu despenderia meu tempo não confiando na vida?
Que os próximos 365 dias tenham o peso exato – nem mais, nem menos do que eu possa suportar (de preferência, de felicidade), – para o aparato todo que foi construído até aqui.

Feliz Natal e um excelente 2018 J