Roller Derby
A Agathe surgiu na minha vida quando eu procurava um/a professor/a particular de francês, e já na primeira conversa, rolou muita afinidade. Não precisaram se passar muitas semanas de aula para percebermos que, além de professora e aluna, éramos, antes, amigas. Desde então, mantemos uma rotina saudável de cafés com boa conversa, troca de ideias, risadas, segredos e doces de paçoca quase semanais (ei, Agathe, ainda não comemos doce de paçoca em 2018, hem!). Aqui, você conhece um pouco mais dessa francesinha encantadora que é poliglota, gosta de saias longas e xinga em francês quando está estressada. Viens, alors!

Agathe, nos fale um pouco sobre você.
Sou Agathe, 24 anos, francesa, morando no Brasil há um ano e meio. Eu gosto de viajar, de cinema, de curtir uma praia (bastante bom aqui em Floripa), ler quadrinhos e conversas longas com as pessoas certas. Pratico roller derby e dança do ventre: são duas atividades maravilhosamente empoderantes. Quando eu estou triste, gosto de tomar um Nescau escutando rap e hip hop dos anos 90. Minha obsessão do momento é preparar meu próximo projeto: mudar-me para o Taiwan para ensinar francês!

Como você vê o fato de ter morado em vários países e tido contato com diversas culturas na constituição da sua identidade? Como você acha que isso te influenciou (influencia)?
Me influencia muito; no meu crescimento e no meu jeito de pensar. Cada novo país, cada nova cultura, cada nova língua, é um novo desafio e uma nova experiência. Viajar e morar em vários países faz com que você tome consciência de que a sua própria versão da verdade não vai ser a mesma para ninguém. Ajuda a relativizar várias coisas e ver como o mundo está cheio de várias coisas para a gente conhecer! Viajem, gente! É uma das coisas mais lindas do mundo!

Qual foi sua motivação inicial em vir para o Brasil?
Minha motivação inicial para vir aqui foi uma paixão que não deu certo. Me cobrei muito de ter feito isso, mas depois fiquei pensando que não é todo mundo que cruza um oceano por amor e que meu gesto era mais importante que o fato de não ter dado certo.

Qual a impressão do Brasil que você teve, logo que chegou, e qual impressão que você tem agora?
Chegando aqui, não falava nem uma palavra de português, e fiquei meio apavorada (rsrs). Agora, eu acho o povo brasileiro muito acolhedor e vejo que meus amigos sempre estão comigo, se tenho um problema. Eu gosto do jeito de se cumprimentar: se abraçando. Mas, tem umas coisinhas que ainda estou tentando entender: a pontualidade questionável (meus amigos me fazem esperar váaaaarias horas como se fosse nada) e o “jeitinho brasileiro”.

Você acredita que os brasileiros, em geral, têm uma visão muito romantizada, ou muito deslumbrada, da Europa?
Totalmente romantizada... mas como se fala: “a grama do vizinho é sempre mais verde”, né... Também, na Europa, estamos com desafios meio pesados, diferente dos daqui. Eu vejo como o tratamento que as pessoas têm comigo muda quando falo que sou francesa, e não da Argentina; o jeito muda bastante quando as pessoas sabem que você é nativo do “velho continente”... Eu acho muito triste, mas são coisas que existem em outros países também...

No sentido de oportunidades, políticas públicas, governo, quais as principais diferenças que você percebeu nos diferentes lugares em que já viveu?
As oportunidades são muito ligadas à cultura e à política de cada país. As metas de vida mudam bastante de uma cultura para outra, mas eu vi que a nossa geração conhece uma falta de oportunidade, quer seja de trabalho ou de estudo. Da minha experiência, a maioria dos países onde fui eram governados por um governo da direita, que geralmente não se importa muito com os, vamos dizer, jovens, em oferecer espaços melhores para desenvolver a educação e a cultura.
Também acho que nesses países (Brasil, Argentina, Colômbia, Japão, Coreia, China) as pessoas vão muito mais atrás de estudos e tal, enquanto na Europa, as pessoas me pareciam mais preguiçosas.

Conte-me uma lembrança de Natal.
Eu passei um Natal em Barcelona, e para a ceia, fomos num restaurante de tapas, comer e beber com minha mãe e meu irmão. Amei esse Natal !

Faça-me uma pergunta (pode ser sobre qualquer assunto).
Se você pudesse ter um super-poder, o que escolheria ? (rsrs)
Eu gostaria de assimiliar os conhecimentos que me interessassem por "osmose"... ou "transferência de dados"... algo assim, rs

Fale sobre o machismo (aqui e em outros lugares...)
Infelizmente, o machismo é uma coisa que existe em todos os países por onde viajei. Ele tem uma forma diferente - dependendo da cultura, - mas acaba sempre objetificando as mulheres e não dando muito crédito a coisas importantes. Na França, tinha vários professores que gostavam de fazer “piadinhas” machistas; no Japão, ofereceram dinheiro por sexo várias vezes para mim e minhas amigas (menores de idade na época, e dava para notar, por causa do nosso uniforme do ensino médio); na Argentina ou na Colômbia, eram muitas “catcalling” (cantadas) ou um flerte que não era recíproco... Exemplos, tenho vários, infelizmente, e não dá para escrever tudo. Aqui (no Brasil) é difícil ser mulher (lendo as notícias, me dá uma raiva... Alguém pode matar uma mulher, mas ficar ‘de boa’ depois de cometer esse crime - ainda mais se a pessoa tem fama...). Mas também foi aqui que eu conheci as meninas mais fodas e mais ligadas sobre esse tema! Lá, na minha terra, sei que meus amigos me acham chata quando tocamos nesse assunto; aqui, dá para conversar e compartilhar vários pontos de vista.
E eu tenho fé que ainda (um dia?) a situação vai melhorar no mundo e que vamos poder andar na rua sem medo, e de cabeça erguida.

A quem interessar possa: De vez em quando vou trazer novas entrevistas a esse espaço, mas não tooooda quinta, ok... ;)