Não é que não se possa ter esses momentos. É que geralmente não se os tem diante de uma câmera...

É engraçado o poder que as imagens exercem sobre o nosso cérebro ou imaginário: de acordo com elas, nós associamos as coisas ou pessoas a características, como se elas fossem aquilo. E isso é tão elementar – primeiro, porque nada é, tudo está; segundo, porque geralmente a própria pessoa se acredita aquilo a que está se associando. Deixe-me explicar do que falo. Um exemplo bem cotidiano: esses leitores cult. Se você for na mídia social de qualquer um deles, vai encontrar imagens e mais imagens de livros e tudo associado ao universo “literário” (a palavra está deturpada, mas na falta de outra, temos de empregá-la). Se se vai examinar os títulos, é uma merda atrás de outra merda: nunca vi um youtuber ou “influencer digital” que lesse algo importante, interessante, clássico, inteligente ou, no mínimo, de bom gosto. São sempre romances açucarados (que depois viram, ou já viraram filmes); séries de livros que se tornam modinha; besteiras sobre como ser o que você não é ou como tornar um milionário (ao autor do livro), etc. Coisas assim. Mas, as imagens... Ah, as imagens...! Dignas de um (auto) publicitário de luxo: é um tal de “estou de pijama, super linda, com o meu livro”; “estou fazendo uma cara esperta diante da minha estante coberta de livros”; “estou lendo um título em inglês – veja! – com a minha caneca fofa com um líquido quente”; “estou descontraída lendo meu romance açucarado enquanto, distraidamente, repouso meu iPhone em cima de outro lixo livro...”. Gente, é surreal! Surreal a capacidade dessa gente de ser poser! Mas, você vê que eles acreditam de verdade que são aquela imagem, que já não obstam o que quer que seja para se tornar aquele produto... E esse foi apenas um exemplo; podemos pegar essa fórmula do ‘sou o que mostro + eu= minhas imagens em tom pastel’ para muita coisa na vida! Isso não pára* apenas nas redes sociais; é muito comum encontrar gente vestida igual a um saco de batatas na rua, mas se sentindo no bafo, pois ela viu aquilo numa imagem do Pinterest #okestounaja
Se alguém está se perguntando como eu sei dessas coisas, ou porque me incomodo com elas, a primeira resposta é que vejo isso na minha timeline quase que diariamente; e a segunda, que me preocupa a forma como algumas palavras perderam totalmente o sentido, e sim, isso me incomoda. Por exemplo, para mim é muito óbvio que nenhum/a blogueiro/a ou youtuber é escritor/a. Ela/ele é, no máximo, um nicho de mercado. Geralmente, nem são essas pessoas que escrevem seus livros, apenas os assinam, pois tem bastante gente tonta seguidores, que podem se interessar em comprar aquilo. Mas, em seus perfis, os “influencer” ostentam bem grandão e sem pudor: escritor – escritora. Aaaah, meu cu. Pode ser pretensiosa essa sentença mas, nem eu, do alto da minha escrita sempre elogiada desde tenra idade não ouso me denominar escritora. Acho que quem faz isso (aqueeeles casos...) não têm um pingo de autoconhecimento, além de ter um ego imenso! Nem precisa refletir grandes coisas para concluir que escritor também não é, necessariamente, quem tem publicações, e tampouco quem sabe gramática ou a estrutura razoável de uma frase – vai um pouco (ou muito!) além disso. Vá aliar a imaginação, a boa escrita e o talento, aí você tem um escritor, uma escritora. São raros, viu. Mas, está aí, em toda parte: sou escritor, sou escritora. O auto rótulo vem com a arrogância da juventude e a concedida autoridade digital das novas gerações. E talvez preocupante mesmo seja quem banaliza (/autoriza) isso... Por umas vendas a mais, editoras antes respeitáveis se dobram a lançar qualquer coisa e mover toda uma indústria, fazendo da crítica adorniana e do pesadelo benjaminiano uma legitimidade... A reprodutibilidade técnica totalmente aplicada à indústria cultural, reproduzindo a podridão acrítica da cultura de massa e arrastando cada vez mais manadas com ela...
Sinceramente, eu nem sei porque vim escrever esse texto... Penso tanto, discuto muito aqui comigo, mas tenho cada vez menos vontade de fazer de minhas ideias, construtos, e deixá-las registradas em forma de texto (e isso explica essa desvontade em escrever aqui no blog). E não é porque não vão ser lidas - na verdade, isso pouco me importa [mas, agradeço com humildade a quem me lê, obrigada ;)]. Mas, sim, porque é como se a gente soubesse que não adianta. Que não importa em quanta coisa interessante você transforme o seu pensamento autônomo, cada vez menos gente vai fazer como você. E o pior: achando que estão. Ou você acha que essa gente que lê Jojo Meyes e Nicholas Sparkes (é assim que escreve?) acha que é “menos intelectual” do que você que aprecia os clássicos? “Ai, mimimi, você está sendo intolerante, quem gosta de coisa antiga é museu, as gerações jovens gostam de coisas do nosso tempo, blabla”. MEU CU DE NOVO, EM CAIXA ALTA. Só uma educação forjada no tecnicismo pode estimular o pensamento a crer que a ausência de historicidade é uma virtude. Que a tradição em algumas coisas não faz falta, e que é possível partir de onde se está, ignorando todo o chão que foi pisado anteriormente! Acreditar que o que é mais novo é sempre melhor é uma pérola pedante digna dos livros de Huxley. (Que quem pensa assim não conhece... Pra que se interessaria...?).
Mas é claro que não é uma competição – sobre quem é um leitor “de verdade” e quem é “de mentira”; ou quem lê coisas que importam em detrimento de outras menos importantes. Até porque, não seria respeitosa nem justa – talvez prepotente mesmo seja querer exigir de um outro as mesmas condições que você foi buscar sozinho, ou que ele/ela consiga ter compreensão de acordo com a sua bagagem, e não com a própria. Logo, essa reflexão truncada é só um desabafo. Desabafo de quem vê cada vez mais gente jovem entretida em ler – mas ler porcarias; e cada vez mais editoras e livrarias dando subsídio a isso, transformando a atividade da leitura num nicho do business (e, obviamente, fazendo com que, com isso, caia a qualidade das publicações, das traduções, etc., muitas vezes importando mais a capa “fofinha” do que o conteúdo, além de perpetuar velhos padrões ultrapassados e romantizar em tons pastéis uma juventude que cada vez dura mais tempo. Etc. Etc. Etc. Eu poderia escrever um [bom] livro falando sobre isso). Enquanto tal, mais semialfabetizados se declararão escritores e escritoras, e seguirão criando conteúdos influentes para gente que não pensa. Fazendo resenhas de best sellers limitados. Associando imagens doces a fatos.
Whatever.
Mas não é só uma preocupação como pensadora, é como educadora também. Muitos deles serão meus alunos... *0*
Devia ser o tipo de desafio estimulante, mas eu sou o tipo de pessoa que não tem muita fé na humanidade (#confissões...).


*Sei que o para, conjugação do verbo parar, não leva mais acento, mas, gente, it's a mistake, faz falta, sim, confunde tudo!