A tarde começava cinza e a ida para a escola contemplava chutar cascalhos e sentir o cheiro da madeira úmida nos fogões a lenha. Às vezes, havia uma garoa fina, que molhava meu rosto apesar do guarda-chuva, e a fumaça nas chaminés me fazia sonhar se algum dia moraria numa casa daquelas. Era inverno e eu estava na segunda série. Deve ser por isso que amo tanto os dias cinzentos: eles remontam a uma época em que tudo era possível...

A estrada se compunha de barro ou poeira. A conversa no caminho era sobre nossos desenhos favoritos, ou se tomando a tabuada para alguma prova importante. Por vezes, havia o silêncio também, entrecortado por qualquer asneira que nos fizesse sentir respeitáveis.
Meu Deus, as provas...! Que pavor e que desespero elas geravam na segunda série. Todo mundo dizia que tudo era tão difícil...! Mantive esse pensamento até o fim daquele ano. Na terceira série, já tinha percebido que não era difícil pra mim, apesar do que os outros falavam.

Meu ego infantil já tinha aspirações intelectuais. Na primeira série, eu odiava as coleguinhas do meu irmão, porque estavam uma série à minha frente. Isso contemplava ter a aula dividida em matérias; saber ciências e geografia. Na minha série eu só tinha alfabetização e continhas. E as aventuras do Téo ou do Trombetinha.
Havia uma pequena – Sheilinha – que era alvo do meu ódio mortal, pois era exatamente do meu tamanho (e eu era a mais pequena da classe). Lembro de um dia ter levado essa frustração para o irmãozão. Ele contemporizou:
-       Mas ela tem 8 anos, você tem 6.
Não importava... ódiiiioooo.
-       Ela só é nanica – completou ele.
Por minha vez, eu não podia entender como meu irmão não achava o máximo uma menina tão pequena já estar na segunda série!
Foi nessa época também que “me apaixonei” por Júlio, o melhor amigo do mano. Ele era ainda mais velho – já tinha 9, pois era repetente; e vivia estudando lá em casa, principalmente matemática. O que me fez apaixonar por Júlio – um menino bem comum e sardento – foi o desafio intelectual que ele me provocou, uma vez em que os dois estavam se tomando a tabuada para a prova. Era pura decoreba, mas eu não estava ainda na época de aprender; mesmo assim ficava lá, enxerida, em torno deles, até Júlio me esnobar: - Você não sabe porque é muito pequena.
Júlio não sabe até hoje que ele foi o precursor de uma busca por excelência acadêmica precoce (risos). Mas a paixão foi logo substituída por Anderson, o menino mais bonito da escola, e que também era colega deles. Anderson adorava me provocar na hora do pega-pega e, anos depois, quando nos reencontramos no primeiro ano do ensino médio, suas caretas e jeito brejeiro ainda estavam bem vivos no meu imaginário (e aí, o pega-pega era outro, rs). Mas, muitas coisas haviam mudado: eu era (apenas) a garota mais inteligente da porra toda, e ele era (só) um bonitinho problemático. Arrastava asa para qualquer menina, e eu não entendia porque me procurava insistentemente dentro da sala de aula (e os olhares femininos de raiva em minha direção). Sentava ao meu lado, queria fazer dupla sempre comigo. Eu fazia parceria com ele sem nenhuma expectativa hormonal, afinal, ele era tão bonito... Achava que era puro interesse em se dar bem às minhas custas. Eu era inteligentíssima, mas estranha, antissocial, desajeitada, tímida. No segundo grau, eu odiava a escola.
Soube, anos depois, que Anderson fora apaixonado por mim. E eu que achava que ele era demais para uma menina apenas inteligente...

Mas, se volto àqueles dias meados da década de 1990 (ou 2000, no caso do ensino médio – também não estou tão velha), me deparo com uma baixinha valente capaz de girar o mundo. E, às vezes, na nossa vida adulta, é importante resgatar aquela criança que nós fomos, no que ela tem de melhor. Sobretudo, diante das mudanças mais impactantes na vida. Pois parece que o passar do tempo, as experiências malfadadas e o medo de sofrer/ errar/ dar ruim de novo, fazem a gente hesitar diante de muita coisa que poderia ser um marco. Eu precisei revisitar essa garra três anos atrás, e agora preciso consultar de novo. E ainda que soe mais suave, nem por isso soa totalmente incólume...

Ter espinhas não é fácil; passar pela puberdade não é fácil; levar um fora não é fácil – mas houve um tempo em que fizemos tudo isso com um sorriso de dentes tortos no rosto. Então, por que os caminhos que nos acossam “na idade da razão” devem ser tão tortuosos? Por que o novo que nos expulsa da convida a sair da zona de conforto é sempre mais perturbador que instigante?

Sempre há mais aconchego e os dias cinzas (e chuvosos... e frios... e convidativos a um livro... lalalá) sempre poderão nos conduzir a uma alameda de redescoberta. É só lembrar que um dia a gente prometeu (sem saber!) fazer aquela garotinha ou aquele garotinho orgulhosx. Daí a gente faz e acerta. Não tem erro :)