Obrigações, metas, objetivos: o quanto perseguimos coisas que, em um processo maior, talvez não tenham tanta importância assim? O quanto de nossos dias são tirados de nós – ou tiramos de nós – em prol de coisas que acreditamos, perseguimos, desejamos... mas sem nem saber bem o porquê?
Ontem eu devia ter vindo escrever aqui, mas tinha umas coisas práticas bacanas para fazer. Diferente da rotina amarfanhada em que me meti nesses últimos tempos, em que um passeio à praia, um momento leve com alguém ou algumas horas fora da tal busca pelo objetivo me colocariam culpada depois. So, I liked it!
Mas é que foi ontem também que eu despertei surpreendida com uma constatação: podia estar fazendo aniversário da minha morte. Sim, pois, quatro anos! Eu podia ter morrido em 17 de março de 2014. E essa reflexão me assomou de um jeito muito forte: quem fui eu nesses últimos 4 anos? O que eu fiz com essa nova chance que me foi dada? Parece bobagem, mas raramente nesse período eu pensei efetivamente naquela quase morte, e em como cada momento era único, precioso e não voltava. Eu até refletia essas coisas em dados momentos, mas nunca de um jeito sólido: permitia que elas viessem a mim apenas como gotas condensadas para uma tarde de temporal em um imenso oceano...

Minha vida mudou muito em pouco tempo. Foi quase naquela época que eu iniciei uma nova fase que, assim rápido igualmente, sinto que está terminando por agora. Há um ciclo se fechando novamente em minha vida, e por isso não sei o quanto é eficaz perguntar a minha identidade nos últimos (ou primeiros?) quatro anos de minha (nova?) vida. Nada até aqui me pareceu muito coeso nem me pareceu fazer muito sentido. Na verdade, a maioria das coisas girou em uma espiral veloz, em que precisei agilmente tomar decisões, fazer mudanças e escolhas importantes, descobrir coisas encobertas a meu respeito, alterar aspectos que pareciam já solidificados, e, nisso tudo, mudei nem sei quantas vezes de pele, de identidade, de postura, de atitude, e por imposição mesmo...

Até ontem, eu nunca tinha pensado que podia não estar fazendo nada disso; e só estar fazendo falta (para a minha família, pelo menos).  Para falar a verdade, esse episódio do raio não foi o primeiro nem o único que quase tirou a minha vida – eu já sobrevivi algumas vezes – mas ele foi um divisor de águas sobre algumas insatisfações que eu, então, já vinha tendo e que, como num flash, dois raios vieram e abriram caminho bem diante dos meus olhos. Talvez nem eu mesma tenha dimensão de tudo o que aquela manhã de terça-feira transformou no meu ser, por não estar diretamente implicado sobre ela. E é muito triste que em alguns dias realmente infelizes da minha existência, que ocorreram depois dos raios, eu não tenha tido essa lucidez de perceber que a vida é, sim, sempre muito mais rica, e não poderiam ser coisas tão pequenas a me tirar o brilho, a coragem e a alegria de viver. Joie de vivre...

O que eu chamei de surpreendente, e usei propositadamente o verbo “despertar” para descrever, não foi apenas porque passei a ter alguns desses pensamentos logo depois de acordar na manhã de 17 de março de 2018, mas porque essa constatação de que podia ser meu aniversário de morte foi uma coisa muito forte, que me acertou em cheio. Afinal, quem é que pensa nisso? Eu nunca havia pensado nisso antes. E ontem avaliei: se fizessem quatro anos de minha partida, quem lembraria dessa data? Para quem ela teria algum significado? Só minha família me veio à mente (talvez injustamente). E pensei em mim mesma, no que eu teria deixado de viver, de explorar, se tivesse sido privada da vida naquele exato instante de 2014. Teria sido, de fato, um furto, ou os últimos 4 anos souberam ser mais expressivos? Só consigo pensar que... depende. Não posso dizer que não valeram a pena, ao menos no que tange à minha autonomia e autoconhecimento. Mas só posso calar sobre ter feito valer cada coisa em seus mínimos detalhes: o que eu vivi foi uma desaceleração do meu antigo modo sentimental e intenso para um estado de quase frieza e indiferença sobre algumas coisas. Passei a praticar uma racionalidade exacerbada em alguns aspectos e um controle desnecessário sobre coisas que não poderia controlar, de modo a me tornar muito mais ansiosa, medrosa, cautelosa... Eu olho para coisas que fazia na minha juventude e penso: Meu Deus, que louca eu era...! E o pior de tudo isso: às vezes acho que continuei esperando que alguém me trouxesse flores... Isso sim foi um aprendizado importante nos últimos quatro anos...

Se estivesse fazendo 4 anos de minha morte, talvez alguém me levasse flores. Um ramalhete bonito, aprumado, de flores quaisquer, ou de rosas brancas, as minhas favoritas. Mas, nesses 4 anos, quantas vezes eu mesma me dei flores? Quantas vezes eu fiz por mim o que queria ver feito, sem ficar esperando de um outro alguém? As pessoas fazem tantas coisas apenas pela convenção social... Nesse caso, que flores seriam mais sinceras ao desabrochar que meus próprios botões? Eu devia mesmo esperar que alguém me trouxesse o café na cama, me dissesse como estou linda e me mandasse um bonito ramalhete em uma data qualquer? De fato, nesses últimos 4 anos eu aprendi a me mandar flores... A ser minha parceira, minha amiga. A estar lá para mim o tempo todo. A cumprir as promessas que me fiz, a amar cada pedacinho de mim e do meu corpo... Eu aprendi a me aceitar como nenhuma época anterior me havia antes proporcionado. É provável que pouco dessa autodescoberta tenha a ver especificamente com aquele episódio terrificante, mas é gostoso chegar aqui e poder sentir o cheiro das flores! Seria muito triste e muito trágico apenas deixá-las murchar sobre um túmulo passivamente. É mesmo muito infeliz que qualquer morte sob a face da Terra permita isso...

Mesmo assim, talvez todo esse fenômeno de amor próprio descrito acima implicasse dizer que eu deveria ter comemorado o meu aniversário ontem. Me permitido fazer alguma coisa especial, fora do comum, como poucas vezes, nesses 4 anos, eu me lembro de ter feito (apesar). Mas, mais uma vez, apostei minhas fichas de que ainda haverão muitos 17 de março. Sinceramente, eu não sei se acho isso positivo; me parece mais um reforço de alguém que eu não sei se, de fato, quero continuar a ser. Se olhar para meus últimos dias, nessa corrida louca contra o tempo para realizar sonhos e desejos; nessa aventura individual de lutar diariamente contra o mundo; nessa exploração insólita a um pote de ouro que eu não sei se vou ter ao final do arco-íris... Não sei. Eu não sei mesmo. Não sei se estou mesmo no caminho. Se a rota é mesmo essa. Ou se eu me perdi de novo...

Para finalizar, eu estou aprendendo a jogar Tarot e essa coisa de raios também lembra, iconicamente, muito a carta “A Torre”. N’A Torre, um raio derruba duas pessoas do alto de uma torre e a destrói – uma destruição importante para a reconstrução, depois. Quem sabe aqueles dois raios, aquele dia, também queriam me mostrar os pilares falsos, as bases erradas sob as quais erigi minha vida por tanto tempo...? Estou descobrindo...
A reflexão final que fica sobre tudo isso é que realmente tudo passa nessa experiência. Nada merece tanta loucura assim; a gente passa a vida colocando cada pedra do castelo e se achando o máximo, para vir um raio e simplesmente destruir tudo...
Talvez também não seja o caso de ser tão pessimista, mas de não se apegar aos dias de sol ou à promessa de que tempestades são sempre ruins. A gente pode sobreviver aos raios... E isso significa muita coisa. n