- Você quer dançar?
Já estava com a cabeça fora do baile. Tantas danças antes, tantas músicas repetidas. Não me apetecia mais reprovar ou ser reprovada por dançarinos. Criar expectativas, criar calos. Mas o convite foi gentil, educado. Inusitado, até. Não achei que devesse recusar nem polidamente. Era apenas uma dança. Depois, eu me voltaria para a minha cadeira.
Ele tomou-me pela mão e fomos para a pista. Era tarde, e as danças anteriores já me haviam cansado. Bem mais do que gostaria.
- Fale-me sobre suas danças.
- Foram todas traumatizantes, cansativas. Deixemo-las. Fale-me você, das suas.
- Traumatizantes e cansativas – e sua boca se tornou um ricto. Eu não sabia se era um sorriso. Se expressava resignação ou dor.
- Alguma mais memorável?
- De alguma forma, todas o são, não é? Quando estamos dançando, sempre achamos que jamais haverá outro par, outra dança. Talvez outra pista.
- Não sei se concordo. Alguns pares já começaram a me pisar os pés no começo... De modo que a dança nem se estendia muito. Mas confesso que havia outros que encenavam muito bem. A peça perfeita, a performance... Eu quase me sentia o Cisne Negro durante a dança... Mas ela era sempre rápida. Nenhum dos meus dançarinos me permitiu concluir meu espetáculo, nem mostrar tudo o que ainda havia nele.
Mudamos de posição. Sua mão tocou meu pescoço e, suavemente, desviou dali uma mecha de cabelo. Lembrei de outra dança. Há realmente ritmos que são muito parecidos.
- Você sabe qual o segredo da dança? – disparou ele, de repente. E antes que eu tivesse tempo para pensar, respondeu enquanto eu girava: - É jamais comparar com qualquer outra. Cada dança é única.
Enrubesci. Estávamos na pista há apenas alguns minutos, mas já pareciam muitas horas... Como ele podia ter lido meus pensamentos? Pois, se havia algo que sempre me dera muita raiva, fora a comparação. Não podemos fingir que ninguém nunca dançou? Porque, afinal, é realmente sempre a primeira vez... Mesmo que não seja.
- Fale mais – provoquei, mordendo o lábio e sorrindo marotamente. Nossas mãos se entrelaçavam e nossos corpos se encaixavam como se cada espaço tivesse sido moldado para, pelo outro, ser preenchido.
- Eu não dancei muitas vezes até hoje. Tive apenas duas danças longas. Tentei guardar em minha memória nossos passos mais bonitos, mas... você sabe... vem o tempo e deteriora tudo. Quando encerrei uma dessas danças, minha bailarina trocou de par na minha frente, sem nenhum decoro. Muito desnecessária. Então, eu me sentei por algum tempo.
Ciente de que só ele falava, me devolveu a provocação. Mas falar de danças do passado nunca fez muito o meu tipo; é irritante e inútil para mim. Se fosse voltar no tempo, jamais daria a honra de minha dança àqueles novatos. Além disso, eu sabia que estava pouco me importando agora com as danças anteriores do meu par, pois não tinha nenhuma intenção de seguir ensaiando com ele. Se esse status mudasse, porém, tudo mudaria junto, e fantasmas do passado viriam ferir meus pés, e ombros, e membros. Eu sempre chegava em novas danças meio esfalfada.
- Já lhe disse. Nunca cheguei ao final de uma dança, era sempre substituída antes. Ou o dançarino apenas se cansava e queria sentar um pouco. E esse pouco se tornava muito. Eles nunca se importaram em me deixar no salão plantada, e... Eu simplesmente fui perdendo a vontade de dançar.
Percebi que a entonação saiu com um pouco mais de emoção do que eu pretendia. Ele baixou os olhos e nos afastamos, levemente. Havia terminado a primeira música. Aquiescemos para a segunda.
- Lembrar das danças antigas pode nos despertar velhos sentimentos adormecidos, não é? Vivemos em um mundo em que as pessoas nem percebem se o dançarino ou dançarina escolhida dança o mesmo ritmo que elas. Vão testando, e se fazendo calos, mas, ... Que nunca percamos a vontade de dançar!
Essa segunda dança foi algo mais agitada, menos pacata que a primeira. Como aqueles bailes cinquentistas, com rapazes de gumex e meninas de vestidos com bolinhas. Mas a animação estava apenas em nossos gestos rápidos e excitação momentânea. Os olhos não mentiam que a dança era confortável mas, ao mesmo tempo, assustadora.
Lembrei que estava cansada. Não havia mais vontade, disposição, , para seguir dançando. Quis me despedir, mas ele impediu.
- Você está fazendo.
- O quê?
- Está me comparando. Está me colocando no mesmo naipe daqueles dançarinos primeiros.
- Vocês também fazem.
- Por que falou no plural?
- Todos vocês nos comparam, a toda hora, em qualquer gesto. Comparam todas as dançarinas, as anteriores e as que nem dançariam com vocês; acham que todas vão querer a vaga... Comparam não só nossas danças, como nossas vestes, ou desvestes, ou passos e formas. Estou cansada disso. O que você vai fazer em seguida, me chamar pelo nome da sua última dançarina? Ou esperar eu te contar sobre por quê nem me dei ao trabalho de levantar para atender ao pedido dos últimos cinco que me chamaram para dançar?
- Você pode estar enganada. Nossa dança será diferente.
- Não será. Nenhuma dança é. Podem ser mais fascinantes, mais convidativas ou falsamente sedutoras, mas só há dois finais possíveis: uma peça longa e fastidiosa, cheia de coadjuvantes e uma plateia indiferente; ou uma peça curta, aparentemente doce, mas com cada dançarino – ou pelo menos um deles – coberto de gazes ensanguentadas, ao final, que finge(m) não doerem quando precisa(m) se forçar a ir dançar novamente. Não podemos dançar mais, mas obrigada pelo convite. E pela dança. Foi a melhor que eu tive nos últimos tempos.
- Me concede, então, uma última?
- Está tentando me convencer.
- Não haverá truques. Prometo.
- Não faça promessas.
- Uma última música. Pode ser curtinha. Porque, afinal, nossa dança mais marcante nem sempre é a mais extensa.
- Não sei, nunca tive uma extensa.
- Tenhamos uma extensa, então.
Larguei sua mão e apanhei meu casaco.
- Eu não quero mais dançar.
- E se a nossa música é que fosse pra ser a mais bonita? – ele gesticulava às minhas costas enquanto eu me ajeitava para partir. – A mais bonita de todas? E se antes eram apenas ensaios, ou apresentações da escola, ou... testes? Como nós podemos dançar bem se não tivermos antes uma série de erros, e... – fez uma última tentativa enquanto eu parava um táxi.
Ganhou o meu olhar e implorou: - Eu não tenho culpa pelas feridas nos seus pés, meu anjo. Mas eu posso aprender a massageá-los...
Voltei-me com a graça de um Rond de jambe e nossos corpos se encontraram, arranjados, perfeitos, bem pertinho.

- Alguns passos. Apenas. Me surpreenda.